Selinho

Selinho

12 de janeiro de 2016

47 anos e desdobrável!

              Pois bem hoje é a véspera do meu aniversário, resolvi que iria escrever algumas linhas sobre o fato de eu insistir em existir.
        Eu estou de férias em um calor bem intenso nessa cidade que eu amo, a minha Porto Alegre. Estou com tempo disponível para refletir e arrumar armários, duas coisas que se retroalimentam, uma vez que arrumando um armário encontramos coisas passadas e o passado volta com força de presente.
         Em uma dessas arrumações encontrei uma caixa cheia de mensagens, mensagens que me foram escritas dias antes da minha cirurgia para retirada de um câncer (sim vai fazer 6 anos em abril!!!).
Fiquei umas duas horas lendo cada carta e cada bilhetinho. No final dessa aventura e tour pelo passado me coloquei a repensar o que me teria salvado daquela situação tão enlouquecedora.
        Acredito que em parte fui salva por meus defeitos.Tenho lutado  internamente para me livrar um pouco do orgulho e da vaidade da minha personalidade. Creio que esses dois somados me causam alguns estragos nos relacionamentos pessoais e profissionais. Desde que eu tive o câncer, tenho passado por uma processo lento de transformação da minha vida. Consegui muita coisa, meu sentimento em relação a mim mesma é, na maioria dos dias, de satisfação. Me sinto bem dentro da pessoa que tenho me tornado. Todavia não tenho como não deixar de reconhecer que o meu orgulho e a minha vaidade me salvaram, pois eu não sucumbi, não enlouqueci porque tratei o câncer como um grande inimigo com o qual lutei. Na minha luta decidi que eu não deixaria transparecer nenhuma brecha de fraqueza ou de dúvida. Eu queria matá-lo e esse pelo menos eu matei! Não estava me meus planos perder para ele, meu orgulho não deixaria.
     A vaidade me salvou nas minhas "aventuras travestis", onde eu tinha que lançar mão de muitos artifícios para permanecer me sentindo mulher. Valeu cada esforço! Valeu encarar os risos e os deboches, nada isso me afetava porque eu precisava era me sentir mulher e isso eu consegui. Não de graça porque para quem tem câncer tudo é muito caro (isso daria outro post), valeu cada real investido em perucas e cirurgias plásticas reparadoras. De sobra me tornei mias empática, hoje eu entendo muito a personagem Agrado do filme Tudo sobre minha mãe (vale a dica do filme).
       Mas não foi só isso que me salvou, teve também a fé em Deus, a entrega, a tentativa de perder o controle e de entregá-lo nas mãos de Deus, o que nem sempre foi fácil, não dá para mentir. Tive que me apoiar na fé de outros e isso em muitos momentos foi o que me sustentou. Lancei mão de toda ajuda possível, pedi orações, pedi a unção dos enfermos e  a comunhão em casa. Tudo para me manter calma e em conexão com Deus e com a sua força curadora.Valeu a pena cada prece entoada, esse foi o segredo maior da minha serenidade.
      Não só os céus me confortaram, também a humanidade me serviu de consolo. Louvo a capacidade humana de fazer a Arte. Também ela me devolveu à vida em muitos momentos. Encontrei consolo na poesia de Adélia Prado,  de Fernando Pessoa e de Mario Quintana. Nos romances carregados de ceticismo de Saramago e nos livros de auto ajuda (que paradoxo!), na efusão de cores e dramas dos filmes de Almodóvar e também nas produções de Hollywood. Nas músicas de Nando Reis, no som do The Killers ( e em em outros roqueiros) e também em algumas trilhas sertanejas. Tudo isso me proporcionou a seguinte constatação:

“Dor não tem nada a ver com amargura.
 Acho que tudo que acontece  é feito pra gente aprender cada vez mais, 
é pra ensinar a gente a viver. 
Desdobrável. 
Cada dia mais rica de humanidade”.                                                                                                             Adélia Prado      
                                  
     Ah esqueci! Teve também a força inigualável dos amores de todo o tipo, isso dará outro post...




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