Selinho

Selinho

15 de novembro de 2011

Ressignificar


Faz algum tempo que não tenho vontade de escrever, apesar da minha vida estar mais corrida, não estou em correria porque "hoje ando devagar porque já tive pressa de chegar", parafraseando Almir Satter. Essa nova vida faz eu até me esquecer daquilo que já passei. Mas o fato é que não quero esquecer, quero lembrar para partilhar que é possível viver grandes momentos de tristeza e mesmo assim tentar não enlouquecer tanto.
Na clínica Oncotrata estou participando do grupo de pacientes, só mulheres que como eu estão ou estiveram enfrentando o câncer  e isso tem sido gratificante. Olhando as histórias de vida, umas bem tristes, outras alegres vamos nos encorajando. Nestas horas percebo que enlouqueci pouco, e isso não é mérito, não me sinto melhor nem pior que ninguém. O fato é que não tem como prever como cada um enfrentará essa aventura, só passando pela situação para saber qual será o nosso comportamento, cada um enfrenta com o que tem e como pode.
Estou neste momento me sentindo super bem, em paz com o meu corpo, já emagreci bastante: 9 kg, até agora, meu cabelo está bem bonito, meus exames ótimos, enfim minha vida voltando a ser vivida.
Em casa estou preparando a festa das minhas bodas de prata, escolhendo músicas, fotos para o telão e isso tem sido uma renovação do meu amor pelo meu marido e do dele por mim.
Na minha vida profissional estou trabalhando em uma escola e estou fazendo pós graduação em Psicopedagogia, na PUC, tem sido muito bom. Uma das disciplinas do curso propôs um trabalho bem legal: teríamos que escrever nossa história de vida até o momento em que escolhemos entrar para o curso, ou seja explicar os motivos que levaram a tomar tal decisão.
Ao me indagar porque escolhi a psicopedagogia, como um novo caminho, foi difícil responder. Porque demandou de mim uma reflexão, foi preciso me olhar e perceber o que isso afinal tem a ver comigo neste momento da minha vida? Momento este que além de reconstruções do corpo, já coloquei novamente uma prótese e estou em processo de reconstrução da mama, também estou fazendo reconstruções da minha vida, retomando rotinas de trabalho e de estudo. Na verdade tem a ver com reaprender, tem a ver com uma palavra que mexeu muito comigo nas leituras de todas as disciplinas até agora vistas: Ressignificar. Talvez seja essa a tarefa que eu preciso primeiro realizar em mim para depois ajudar outros e outras a realizarem: a ressignificação das próprias histórias.

            Atualmente no meu trabalho quando exerço o cargo de supervisora e orientadora educacional eu me deparo com um paradoxo importante e que me chama muito a atenção: eu estou lá em uma atitude de escuta, buscando dar um encaminhamento, fazer uma mediação, enfim ajudar a realizar o processo educativo da melhor forma possível; porém, em muitos casos, quando as histórias de vida são bem piores que a minha me sinto “ajudada”. Tenho apreendido muito nesta relação e penso muito nas palavras da Alícia Fernandez, quando nos diz que ora somos ensinantes, ora somos aprendentes. É isso o que tem me motivado: um desejo imenso de ensinar, aliado a um desejo imenso de aprender.

Para encerrar mais um trecho da música Tocando em Frente de Almir Satter, que é o que estou fazendo e o que estou sentindo:
Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei

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