Selinho

Selinho

23 de janeiro de 2011

"Lapidada"


Um novo ano, um novo começo, um novo jeito de fazer coisas...
Terminada a etapa da quimioterapia, é hora de enfrentar outra parte do tratamento; a ingestão diária de tamoxifeno por 5 anos. Surgem dúvidas, alguns receios que não chegam a ser medos, são mais leves. Mas uma decisão toma conta de mim: vou tomar o comprimido religiosamente no mesmo horário e ele é mais uma arma que disponho na luta contra o câncer. Eu gostaria muito de não estar passando por isso, mas já que estou, louvo a Deus pela existência do tratamento e de medicações que são eficazes e curam, câncer  não é mais sinônimo de morte. No caso do câncer de mama as pesquisas mostram que não há como se prevenir dele, porém o diagnóstico precoce é uma das únicas chances que temos. Portanto exames periódicos, mamografias anuais, são uma forma de se proteger. Ao sinal de mudança no corpo, convém deixar o medo de lado e enfrentar a situação.
Segundo dados do IMAMA - RS, no Brasil por dia morrem 30 mulheres acometidas por este tipo de câncer. Fato este que poderia ser minimizado com diagnóstico e tratamento precoces. A chance de cura deste câncer no estágio inicial da doença é de 95% e isto não é pouco.
Quanto a mim quero viver, se assim Deus permitir, até os oitenta, noventa anos, quem sabe?
Mas com saúde do corpo e da alma. Quero ir a formatura dos meus filhos, quero casá-los e conduzi-los ao altar, quero festejar todas as bodas possíveis e quero ninar meus netos, bisnetos e dar ainda muito de mim.
Para que isso seja possível iniciei uma mudança lenta mas contínua, estou cuidando bem de mim mesma, revendo alimentação, caminhando quase diariamente, reduzi por hora minha jornada de trabalho e estou empenhada em ser a minha prioridade número 1.
Quando caminho pela orla do Guaíba, moro na zona sul de Porto Alegre, um sentimento de amor a mim mesma me invade, sinto uma força grande para lutar em busca de meus objetivos que são de toda ordem e às vezes de relevância duvidosa. Por exemplo: Quero ter uma bunda menor, kkkk, mas também quero iniciar um novo curso de pós graduação. Neste paradoxo do fútil com aquilo que é mais sério, vou caminhando e tecendo planos para a minha existência. É assim que sinto a vida: multi facetada e assim sinto as pessoas: um pouco fúteis, um pouco sérias. Acho muito interessantes as que mantém esse equilíbrio e que conseguem viver essa dialética no cotidiano.
Com tanto pensar me vem o que a minha vida tem sido ultimamente e vejo que vivo um momento onde há uma avalanche de emoções. Não tem como não usar a frase de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...". As emoções são incontáveis, sentimentos que surgem em todos os momentos da minha vida e me afetam às vezes positivamente e em outras vezes negativamente.
Mas especialmente durante uma doença somos quase que forçados a prestar a atenção naquilo que sentimos, temos enfim um tempo para nos escutar e escutar o que nos afeta. É por isso que uma doença pode ser uma oportunidade única de "lapidação". E para mim foi além de escuta atenta ao que me ocorreu, uma lapidação profunda que me livrou de camadas de orgulho, vaidade, busca de poder. No final encontrei em mim uma mulher mais amorosa, mais conectada consigo mesma. Foi um processo que doeu muito, mas foi necessário polir para brilhar mais, brilhar por dentro, para reluzir por fora.
Neste jogo da vida escolhi, como já disse o papel de protagonista e como diz Lulu Santos: "não vou sobrar de vítima das circunstâncias." São escolhas que podem fazer de nós pessoas felizes ou infelizes e eu acredito que no final é o que temos: a escolha. Talvez essa seja a única liberdade, quando tudo a nossa volta foge do nosso controle, ou melhor, quando descobrimos que não temos controle nenhum sobre a nossa vida e apesar de nos sentirmos em paz, coisas ruins nos acontecem e a liberdade de encará-las é única e cabe somente a nós decidir como fazê-lo. Eu decidi encarar de "peito" aberto e não me arrependo.

2 comentários:

  1. Oi Lu.
    Também penso como você...
    Quando descobrimos que não temos o controle da vida, que aquele controle que pensávamos ter, na verdade nunca existiu, temos algumas alternativas: enlouquecer, nos deprimir, ou encarar.
    E é assim que somos, optamos por encarar!
    E ao encarar podemos ganhar um brinde maravilhoso, a vitória..
    Já somos vitoriosas.
    Beijos

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  2. Mais uma vez me emociono ao ler um texto teu,
    choro, sorrio, me arrepio e de verdade oro por ti, para que continues firme e protagonista, buscando dia após dia um motivo diferente para festejar. Continue escrevendo...

    Bjs...

    Ana Paula

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