Selinho

Selinho

31 de janeiro de 2011

O que me importa?



Lendo o livro, "Cartas do poeta sobre a vida", encontrei:
Sobre vida e viver...
É necessário viver a vida ao limite, não segundo os dias, mas segundo a profundidade. Pois nossa vida é grande e acomoda tanto futuro, quanto somos capazes de carregar...
Rilke



Pois é quanto de futuro ainda sou capaz de carregar?
Antes de ser surpreendida pelo inesperado, eu tinha muitos planos e brincava dizendo que era muita coisa a ser vivida em uma única vida, que talvez não desse tempo.
As palavras tem poder? Creio que sim e me pregaram uma peça. Pois ao dizer que não dava tempo, parece que eu tinha a intuição que era preciso priorizar, descobrir o que fazer, por onde ir...
Resolvi que estou escolhendo o que fazer com o tempo que tenho, que espero sinceramente seja muito longo.
Estou livre da doença, mas não do fantasma dela, a terapia ainda tem um lugar importante na minha vida e serve para que eu me olhe e me redescubra, e redescubra possibilidades e respeite meus limites.
O corpo pede aquilo que a alma manda. Acho que foi por isso que passei por este processo de reinvenção, resignificação. Foi necessário apesar de não ter sido fácil.
Entrei na panela como milho e me transformei em pipoca, mas para isso passei pelo fogo.
Sempre adorei os textos de Rubem Alves e em uma das suas crônicas ele diz exatamente isto: "para ser pipoca tem que passar pelo fogo, quem não passar pelo fogo virá piruá, milho que ninguém quer que ficou duro no fundo da panela". 
Parece ameaçador passar pelo fogo, mas depois que passamos, descobrimos que somos capazes de suportar muito e de relativizar tudo que julgávamos grave e importante.
Descobrimos que não são "problemas" nossos, da nossa família, dos nossos amigos, descobrimos enfim que os problemas são "humanos", ou seja fazem parte da nossa trajetória de vida, impossível viver sem eles. O possível é administrá-los.
Passamos a julgar menos, mas a sermos mais seletivos, somos capazes de entender os sentimentos alheios, mas passamos a escolher com quem queremos conviver. 
Percebemos que o tempo precisa ser usado de forma inteligente, isso é sinal de maturidade. Paramos de perder tempo com mesquinharias e não raro fugimos de situações de conflito, como forma de auto cuidado. 
Só entramos em uma briga, quando esta vale a pena.
Vomitamos todos os sapos que outrora engolimos. 
Esvaziamos a mochila para que possamos enche-la de coisas leves e agradáveis e principalmente enche-la de futuro.
Somos mais sinceros.
Talvez menos agradáveis com os outros e mais agradáveis conosco.
Importa mesmo é viver e ser feliz, ter uma vida que valha a pena ser vivida em profundidade e às vezes com alguma superficialidade, senão a gente não aguenta.

29 de janeiro de 2011

Oração de São Jorge - Narrada por Pedro Bial


Não sei dizer o porque mas essa oração tem me ajudado muito, hoje especialmente ela me comove!

24 de janeiro de 2011

É obra do acaso?


No editorial de sábado do jornal Zero Hora a Dra Maira Caleffi, presidente do Instituto da Mama - RS, uma organização não governamental, alertava para o número de mulheres que morrem diariamente em decorrência do câncer de mama. Dizia ela que já que não há prevenção, é preciso diagnosticar a enfermidade no início do seu surgimento. Daí fiquei pensando novamente na doença e no porque do seu surgimento na minha vida, pensei que realmente é quase uma loteria ao contrário, principalmente no meu caso que amamentei os três filhos, não fumo, não bebo (depois da quimio tomei umas tacinhas de espumante), etc, etc, e tudo que já disse antes, afinal fiz quase tudo que uma "boa" moça de família faria. Para que? Para ser contemplada com essa doença mutilante, tem horas que é difícil não sentir um sentimento de revolta.
Outro dia estava no supermercado e o rapaz que me ajudou com os pacotes me perguntou, como era a quimioterapia (ele me viu quase careca e associou ao câncer), se era muito ruim mesmo e se eu tinha idéia de porque eu tinha sido "sorteada"? (Palavra não muito apropriada uma vez que deriva de sorte, que sorte?)
Lhe respondi que não fazia a mínima idéia, não sou nenhuma santa, mas me considero uma pessoa relativamente legal, sem falhas graves de caráter e que simplesmente não havia uma explicação, ou seja eu não sabia porque tinha adoecido. Também tenho uma vida relativamente boa, tenho uma família que se ama, unida e onde as discórdias e conflitos são administráveis, não há nada de muito grave nos acontecendo, a não ser os problemas cotidianos.
Pensei na minha irmã que morreu com a mesma doença aos 38 anos e senti muita saudade e lembro o quanto ela era divertida, bonita e o quanto sofreu com dores que nem a morfina acalmava.
É justo?
Acho que não, mas não dá para entrar neste tipo de raciocínio, pois o câncer é bem democrático atinge todas as idades e todos os tipos de pessoas, se pensarmos nas crianças então...
 O que eu quero dizer com tudo isso é que tem uma parcela da nossa vida que é marcada por sorte ou azar, é a única explicação que encontro no momento, não acredito em carma, em expiar os pecados de outra encarnação. Encarnada estou com certeza nesta vida. Tão pouco acredito que estou pagando por algum erro, não fiz nada de tão grave que mereça tamanho castigo e de novo é uma lógica complicada, quando vemos crianças em estado terminal. Espiritualmente acredito em um Deus que de tanto amar já nos redimiu, um Deus que tem um amor incondicional que não nos julga por méritos ou deméritos; que nos ama até nas nossas fraquezas, ou seja acho que isso não tem nada a ver com Deus.
Porque então?
Ainda não sei a resposta e talvez nunca a saiba, mas quando olho para tudo que passei e a revolta tenta achar um lugar para ficar, tento ver que existem histórias piores que a minha, renovo a minha esperança, levanto a cabeça e novamente sigo em frente, no momento é só o que posso pensar e fazer.

Mais fotinhos do meu aniversário










23 de janeiro de 2011

"Lapidada"


Um novo ano, um novo começo, um novo jeito de fazer coisas...
Terminada a etapa da quimioterapia, é hora de enfrentar outra parte do tratamento; a ingestão diária de tamoxifeno por 5 anos. Surgem dúvidas, alguns receios que não chegam a ser medos, são mais leves. Mas uma decisão toma conta de mim: vou tomar o comprimido religiosamente no mesmo horário e ele é mais uma arma que disponho na luta contra o câncer. Eu gostaria muito de não estar passando por isso, mas já que estou, louvo a Deus pela existência do tratamento e de medicações que são eficazes e curam, câncer  não é mais sinônimo de morte. No caso do câncer de mama as pesquisas mostram que não há como se prevenir dele, porém o diagnóstico precoce é uma das únicas chances que temos. Portanto exames periódicos, mamografias anuais, são uma forma de se proteger. Ao sinal de mudança no corpo, convém deixar o medo de lado e enfrentar a situação.
Segundo dados do IMAMA - RS, no Brasil por dia morrem 30 mulheres acometidas por este tipo de câncer. Fato este que poderia ser minimizado com diagnóstico e tratamento precoces. A chance de cura deste câncer no estágio inicial da doença é de 95% e isto não é pouco.
Quanto a mim quero viver, se assim Deus permitir, até os oitenta, noventa anos, quem sabe?
Mas com saúde do corpo e da alma. Quero ir a formatura dos meus filhos, quero casá-los e conduzi-los ao altar, quero festejar todas as bodas possíveis e quero ninar meus netos, bisnetos e dar ainda muito de mim.
Para que isso seja possível iniciei uma mudança lenta mas contínua, estou cuidando bem de mim mesma, revendo alimentação, caminhando quase diariamente, reduzi por hora minha jornada de trabalho e estou empenhada em ser a minha prioridade número 1.
Quando caminho pela orla do Guaíba, moro na zona sul de Porto Alegre, um sentimento de amor a mim mesma me invade, sinto uma força grande para lutar em busca de meus objetivos que são de toda ordem e às vezes de relevância duvidosa. Por exemplo: Quero ter uma bunda menor, kkkk, mas também quero iniciar um novo curso de pós graduação. Neste paradoxo do fútil com aquilo que é mais sério, vou caminhando e tecendo planos para a minha existência. É assim que sinto a vida: multi facetada e assim sinto as pessoas: um pouco fúteis, um pouco sérias. Acho muito interessantes as que mantém esse equilíbrio e que conseguem viver essa dialética no cotidiano.
Com tanto pensar me vem o que a minha vida tem sido ultimamente e vejo que vivo um momento onde há uma avalanche de emoções. Não tem como não usar a frase de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...". As emoções são incontáveis, sentimentos que surgem em todos os momentos da minha vida e me afetam às vezes positivamente e em outras vezes negativamente.
Mas especialmente durante uma doença somos quase que forçados a prestar a atenção naquilo que sentimos, temos enfim um tempo para nos escutar e escutar o que nos afeta. É por isso que uma doença pode ser uma oportunidade única de "lapidação". E para mim foi além de escuta atenta ao que me ocorreu, uma lapidação profunda que me livrou de camadas de orgulho, vaidade, busca de poder. No final encontrei em mim uma mulher mais amorosa, mais conectada consigo mesma. Foi um processo que doeu muito, mas foi necessário polir para brilhar mais, brilhar por dentro, para reluzir por fora.
Neste jogo da vida escolhi, como já disse o papel de protagonista e como diz Lulu Santos: "não vou sobrar de vítima das circunstâncias." São escolhas que podem fazer de nós pessoas felizes ou infelizes e eu acredito que no final é o que temos: a escolha. Talvez essa seja a única liberdade, quando tudo a nossa volta foge do nosso controle, ou melhor, quando descobrimos que não temos controle nenhum sobre a nossa vida e apesar de nos sentirmos em paz, coisas ruins nos acontecem e a liberdade de encará-las é única e cabe somente a nós decidir como fazê-lo. Eu decidi encarar de "peito" aberto e não me arrependo.

22 de janeiro de 2011

PAUL MCCARTNEY - Live And Let Die - Morumbi - Sao Paulo - 21/11/2010 5

Live and let die, ou simplesmente viva e deixe morrer...


Viver e deixar morrer, é simplesmente aceitar que tudo muda o tempo inteiro.
Tudo muito lindo na teoria, mas na prática é outro papo.
Sou apegada a tudo que me rodeia e que faz parte da minha vida. Claro que com tudo o que me aconteceu me sinto um pouco mais desprendida, mas em mim o desejo de controlar coisas, pessoas e acontecimentos é ainda muito forte.
Eu todos os dias me olho no espelho para ver se nasceu um fio de cabelo novo, fico querendo imaginar o cabelo pintado de outras cores e me pego com um sentimento de saudades de um passado recente.
É loucura, queria tanto que terminasse o tratamento e terminou, agora queria tudo rápido de volta, impossível!!!
Paciência, nada de posar de vítima das circunstâncias, sou uma protagonista, sempre fui e sempre serei. Foi o papel que escolhi para a história da minha vida. sou uma "mocinha" da novela das oito, daquelas que tudo acontece e ela se dá bem, tem o amor da sua vida, filhos lindos, mas passa por alguns percalços até o "felizes para sempre". Claro que todos os dias preciso realimentar o "para sempre" e de alguma forma um pouco dele morre e renasce reinventado.
Hoje não sou mais a mulher que era há um ano atrás, sou em muitos aspectos, muito melhor.
Tenho uma história para contar, de luta, sofrimento e de vitória e tudo porque eu vivi e deixei morrer...

"Mas se este mundo sempre em mutação
No qual vivemos
Faz você se render e chorar
Diga "Viva e deixa morrer" 
Diga "Viva e deixa morrer"
Paul Mc Cartney / Linda Mc Cartney

14 de janeiro de 2011

4.2 DURA DE MATAR

Faz tempo que não escrevo, tenho tido pouco tempo e às vezes pouca vontade.
Hoje estou escrevendo para relatar a minha felicidade por ter comemorado mais um aniversário, ontem fiz 42 anos. Foi uma festa muito legal, a minha casa ficou cheia das pessoas que amo e muito; me senti uma menina, de 1 ano de idade, meu cabelo é de bebê, aliás ...
Na segunda feira desta semana, tive uma crise de identidade e abandonei a peruca, estava cansada dela, me sentia disfarçada, pouco autêntica e isso para mim é o que de pior pode me acontecer. Gosto de me olhar e me reconhecer; a peruca teve seu tempo importante, me ajudou a suportar o que era difícil, mas passou...
É  bem verdade que com o término da quimioterapia, nada termina, eu gostaria muito de voltar a ser quem eu era antes, ter o cabelo de volta como um passe de mágica, e isso é impossível!!!
É preciso paciência, para esperar crescer o cabelo e esperar o corpo voltar ao normal. Mas a graça de sentir-se viva, sentir os cheiros novamente, sentir disposição em realizar tarefas simples que durante o tratamento eu não podia fazer, não tem preço.
Com o ano novo vem a esperança de ter vencido esta batalha, estou em guerra ainda por cinco anos, mas sei que a minha chance é muito grande, porque sou "dura de matar". Dos desafios da minha vida este não foi nem de perto o maior. Tive uma infância problemática, de difteria à meningite, nada faltou no meu histórico de doenças infantis, além de todas as doenças tive um acidente de carro que deixou algumas cicatrizes e um tempo longo de hospitalização e tudo isso quando eu ainda não tinha 7 anos.
Portanto essa guerra é praticamente ganha, uma vez que hoje sou uma mulher madura, com bons recursos internos e com saúde física, sim, apesar do câncer.
Bem volto a festa do meu aniversário e quero dividir com quem me lê, algumas imagens do meu niver...