Selinho

Selinho

30 de setembro de 2010

A vida como ela é ...


Hoje o dia não começou bem , de madrugada, quando o telefone toca é sinal de má notícia. Faleceu a mãe de um amigo nosso e ficamos muito perplexos com a velocidade em que o câncer matou ela. Não tenho muita certeza, mas do diagnóstico final até a morte se passaram apenas 2 semanas. Apenas duas semanas, no máximo dois meses de doença, sem saber muito bem o que era. Sai de manhã para caminhar porque eu não tenho condições de olhar a morte e a doença neste momento da minha vida. Fiquei pensando nela: a mãe do meu amigo. Pensei em como ela acolhia cada um que chegava a sua casa, de como fazia comidas gostosas e recebia todos sem distinção, como uma boa descendente italiana. Ela fará muita falta a todos, mesmo nós que não somos diretamente ligados, aprendemos muito da sua vida e da sua forma de viver: tudo muito simples e despojado. Mas um despojamento de verdade mesmo, daqueles que entrega o que tem sem esperar "nadinha" em troca.
Dona Ina vá em paz, que Nossa Senhora já a esteja recebendo e lhe encaminhando ao lugar merecido.
É óbvio que neste momento da minha vida quando alguém morre de câncer eu sinto também por mim mesma, me coloco no lugar, fico duas vezes abalada, sei que estou curada, não tenho mais o câncer e nenhum tumor, mas nada impede que ele volte. Acho que é mais um teste para ver se estou mesmo confiando em Deus e em seu trabalho por mim. Durante esta semana fiquei sabendo de um caso de um menino de três anos que faleceu pela mesma enfermidade, daí todas as minhas teorias que achavam que o meu stress, produziu isso no meu corpo foram por água abaixo. Como já disse essa doença é bem democrática, atinge a todos independente de idade, cor da pele, situação financeira, atinge boas e más pessoas.
Como nos defender então? Será que há algo que possamos fazer? Acredito que sim, pois temos o livre arbítrio, que Deus nos concede, então acredito que um enfrentamento positivo frente a situações adversas ajuda bastante, é um caminho para a cura ou para uma morte mais digna.
Hoje também tive que cumprir uma promessa que havia feito aos alunos do Jardim B lá da escola. Estou retomando minhas atividades e estou usando peruca, então a curiosidade deles ficou a mil, queriam que eu tirasse a peruca e me revelasse careca. Não me senti a vontade de fazer isso, ali pessoalmente, mas prometi que tiraria uma foto e mostraria a eles. Hoje eu fui mostrar a foto, primeiro conversamos a respeito do que era o câncer, se alguém conhecia a doença, muitos sabiam o que era,  já tinham tido avós e pessoas da família que já tiveram a doença. Daí expliquei os meus sentimentos ao ficar careca: falei que primeiro tinha ficado muito triste, mesmo. Depois disse que entendi e estava também aprendendo, que o remédio evitaria o retorno da doença e era muito importante para a minha cura.  Eu falei, então, que preferi ficar careca e viva, e que os meus cabelos nasceriam de novo. Falei também que aprendi (o que não é mentira), que a minha beleza e a deles também estava dentro do coração e não fazia mal estar sem cabelos, pois eu continuava a mesma. O que importa é o que temos por dentro e não por fora...
Eles ficaram ouvindo muito atentos, daí mostrei a foto. Dei a liberdade para eles rirem e disse que realmente era engraçado uma mulher careca. Alguns riram muito, outros ficaram meio espantados e notei outros tristes.
A minha intenção foi mostrar a vida como ela é: hoje estamos bem, amanhã algo pode mudar; pais também morrem, nesta turma está o meu sobrinho de 5 anos que perdeu o pai há dois anos. É preciso ensinar a vida como ela é, a realidade nunca traumatiza ao contrário desenvolve a resiliência, essa capacidade de se manter equilibrado mesmo sob pressão. Acredito que foi muito produtivo. No final me emprestaram um cachorro de pelúcia que está visitando as casas, para ficar comigo, já que amanhã faço quimioterapia. Eles entenderam tudo e quiseram compensar o sofrimento do momento, me mandaram um pouquinho deles para estar comigo. É por isso que amo tanto as crianças e o trabalho com elas. Elas nos surpreendem a cada momento com atitudes talvez mais equilibradas que as nossas. Quanto a foto, disse a eles que eles só viram porque eu confiava e amava muito eles, poucas pessoas me viram careca, não tanto por vaidade (mas também por ela), mas acredito que eu choco muito os outros quando mostro minha vulnerabilidade do momento.
É foi um dia de encarar a vida como ela é, de verdade, colorida, multi facetada, cheia de luzes, sons, cores e cheiros diferentes, foi um dia de vê-la sem disfarces, apesar da minha peruca.

Um comentário:

  1. OI LU,A CADA DIA AUMENTA MINHA ADMIRAÇÃO POR VC QUE DEUS TE DÊ MUITA FORÇA E TE ILUMINE SEMPRE BJS TE ADORAMOS

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