Selinho

Selinho

30 de setembro de 2010

A vida como ela é ...


Hoje o dia não começou bem , de madrugada, quando o telefone toca é sinal de má notícia. Faleceu a mãe de um amigo nosso e ficamos muito perplexos com a velocidade em que o câncer matou ela. Não tenho muita certeza, mas do diagnóstico final até a morte se passaram apenas 2 semanas. Apenas duas semanas, no máximo dois meses de doença, sem saber muito bem o que era. Sai de manhã para caminhar porque eu não tenho condições de olhar a morte e a doença neste momento da minha vida. Fiquei pensando nela: a mãe do meu amigo. Pensei em como ela acolhia cada um que chegava a sua casa, de como fazia comidas gostosas e recebia todos sem distinção, como uma boa descendente italiana. Ela fará muita falta a todos, mesmo nós que não somos diretamente ligados, aprendemos muito da sua vida e da sua forma de viver: tudo muito simples e despojado. Mas um despojamento de verdade mesmo, daqueles que entrega o que tem sem esperar "nadinha" em troca.
Dona Ina vá em paz, que Nossa Senhora já a esteja recebendo e lhe encaminhando ao lugar merecido.
É óbvio que neste momento da minha vida quando alguém morre de câncer eu sinto também por mim mesma, me coloco no lugar, fico duas vezes abalada, sei que estou curada, não tenho mais o câncer e nenhum tumor, mas nada impede que ele volte. Acho que é mais um teste para ver se estou mesmo confiando em Deus e em seu trabalho por mim. Durante esta semana fiquei sabendo de um caso de um menino de três anos que faleceu pela mesma enfermidade, daí todas as minhas teorias que achavam que o meu stress, produziu isso no meu corpo foram por água abaixo. Como já disse essa doença é bem democrática, atinge a todos independente de idade, cor da pele, situação financeira, atinge boas e más pessoas.
Como nos defender então? Será que há algo que possamos fazer? Acredito que sim, pois temos o livre arbítrio, que Deus nos concede, então acredito que um enfrentamento positivo frente a situações adversas ajuda bastante, é um caminho para a cura ou para uma morte mais digna.
Hoje também tive que cumprir uma promessa que havia feito aos alunos do Jardim B lá da escola. Estou retomando minhas atividades e estou usando peruca, então a curiosidade deles ficou a mil, queriam que eu tirasse a peruca e me revelasse careca. Não me senti a vontade de fazer isso, ali pessoalmente, mas prometi que tiraria uma foto e mostraria a eles. Hoje eu fui mostrar a foto, primeiro conversamos a respeito do que era o câncer, se alguém conhecia a doença, muitos sabiam o que era,  já tinham tido avós e pessoas da família que já tiveram a doença. Daí expliquei os meus sentimentos ao ficar careca: falei que primeiro tinha ficado muito triste, mesmo. Depois disse que entendi e estava também aprendendo, que o remédio evitaria o retorno da doença e era muito importante para a minha cura.  Eu falei, então, que preferi ficar careca e viva, e que os meus cabelos nasceriam de novo. Falei também que aprendi (o que não é mentira), que a minha beleza e a deles também estava dentro do coração e não fazia mal estar sem cabelos, pois eu continuava a mesma. O que importa é o que temos por dentro e não por fora...
Eles ficaram ouvindo muito atentos, daí mostrei a foto. Dei a liberdade para eles rirem e disse que realmente era engraçado uma mulher careca. Alguns riram muito, outros ficaram meio espantados e notei outros tristes.
A minha intenção foi mostrar a vida como ela é: hoje estamos bem, amanhã algo pode mudar; pais também morrem, nesta turma está o meu sobrinho de 5 anos que perdeu o pai há dois anos. É preciso ensinar a vida como ela é, a realidade nunca traumatiza ao contrário desenvolve a resiliência, essa capacidade de se manter equilibrado mesmo sob pressão. Acredito que foi muito produtivo. No final me emprestaram um cachorro de pelúcia que está visitando as casas, para ficar comigo, já que amanhã faço quimioterapia. Eles entenderam tudo e quiseram compensar o sofrimento do momento, me mandaram um pouquinho deles para estar comigo. É por isso que amo tanto as crianças e o trabalho com elas. Elas nos surpreendem a cada momento com atitudes talvez mais equilibradas que as nossas. Quanto a foto, disse a eles que eles só viram porque eu confiava e amava muito eles, poucas pessoas me viram careca, não tanto por vaidade (mas também por ela), mas acredito que eu choco muito os outros quando mostro minha vulnerabilidade do momento.
É foi um dia de encarar a vida como ela é, de verdade, colorida, multi facetada, cheia de luzes, sons, cores e cheiros diferentes, foi um dia de vê-la sem disfarces, apesar da minha peruca.

29 de setembro de 2010

COLHA O DIA


Hoje fiquei pensando que durante muito tempo da minha vida meu lema era: "carpe diem", ou seja colha o dia. Apesar deste lema, não levava uma vida de acordo com isso.
Tinha saúde para vivê-la intensamente, mas às vezes tinha preguiça. Então deixava para depois aquilo que eu me propunha fazer. Vivia uma rotina mais ou menos cômoda.  Mas de repente tudo isso acabou, nada de rotinas, nada de planos, nada de controle. Como fiquei diante disso? Acho que mais livre. Me sinto liberta das amarras que me impediam de viver mais plenamente. Faço o que tenho vontade, cuido do meu dia com muito carinho, aproveitando ao máximo cada momento, cada oportunidade de estar em contato com outras pessoas.
Tenho tido a oportunidade de pensar e sentir tudo o que estou vivendo de olhos bem abertos e neste processo me pergunto:
Quem mesmo se importa?
Quem mesmo eu quero que esteja do meu lado neste momento?
Tem dias que quero estar rodeada de gente e em outros procuro a solidão, o momento do silêncio, como escutei dia desses, em uma palestra. Às vezes também é preciso ficar só, enfrentar os medos, os desafios, saber que estamos dando um passo por vez, como me disse a Magali do Sérgio.
Das certezas que eu sempre carreguei comigo sobraram poucas: minha fé em Deus, meu amor a família e meu desejo de estar curada do corpo e da alma. As dúvidas e a falta de conhecimento em muitos aspectos, peço que Deus me ilumine e traga a sua luz para que eu alcance o entendimento.
Acho que agora vivo a filosofia do "colha o dia".
Eu estou vivendo verdadeiramente, colhendo cada dia com uma delicadeza e cuidado como se fosse uma flor do meu jardim, algo que me alegre e que me torne a cada dia mais feliz.
Uso o meu tempo com a sabedoria de quem descobre que um dia tudo acaba.
Só o que não termina são as boas lembranças e o amor que vivemos.
Por isso carpe diem!

28 de setembro de 2010

Calma, Deus tem um plano!

Faltam 3 dias e meio para eu fazer o quarto ciclo de quimioterapia e um pouco de ansiedade já toma conta de mim. Fico com o sono alterado, sonho coisas estranhas e tento dispersar fazendo algo que me dê prazer.
Porém aquela lembrança fica aqui martelando na minha cabeça e tenho tido pouco sucesso na tarefa de me esquecer do problema e "sentar enquanto Deus trabalha", li isso em uma mensagem e achei de uma grande sabedoria.
Estou tentando deixar Deus trabalhar...
Tenho brincando dizendo aos meus amigos: - Calma eu tenho um plano!
Na verdade tento me manter calma, porque sei que Deus tem um plano de amor para mim...
O que estou vivendo não é em vão, para alguma coisa está servindo e já descobri tantas coisas, agente aprende até a conhecer as pessoas que nos rodeiam, se estão solidárias, se estão indiferentes, se estão amedrontadas.
Tem gente que me olha e eu percebo o que o olhar está dizendo: - " coitada vai morrer", dá vontade de dizer: - você também vai! Todos vamos. Daí me lembro de nosso vice-presidente José Alencar, que é um vitorioso, já passou por bem mais situações do que eu dizendo: - Se Deus quiser que eu morra, ele não precisa de um câncer para isso. Por isso fico calma e na maioria dos dias escolho ser feliz, fazer o bem para mim e outros.
No final de semana só no trânsito, quantos abreviaram suas vidas? Jovens, velhos e crianças. A morte é democrática, não poupa ninguém. Por isso enquanto estamos vivos temos a chance de fazer esse mundo, (falo deste pequeno mundo que nos rodeia: família, trabalho, amigos, novos e velhos)  melhor, mais alegre e feliz.
Tenho certeza que eu tenho plano e Deus tem um maior ainda, que eu ainda não posso compreender, talvez nunca entenda, não faz mal, mas sei que Ele me cuida com amor.
Daí achei essa figura que diz tudo:

25 de setembro de 2010

A metamorfose da alma


Falar sobre mudanças internas é bem mais complicado do que falar sobre o que está mudando por fora.
Na verdade a minha metamorfose se dá de dentro para fora.
Internamente eu tenho que vencer conceitos que me impedem de levar uma vida mais leve, o peso da alma, neste momento é muito mais importante que o peso do corpo. A alma precisa estar leve...
Esta leveza eu tenho procurado desenvolver a cada sessão de terapia transpessoal, com a minha amiga e terapeuta Cleusa Thewes,  que tem me ajudado muito neste sentido.
Vivenciar o processo de terapia, não é fácil, pois implica olhar para dentro de nós e descobrir as próprias mazelas. Porém quando conseguimos com sinceridade perceber nossa imperfeição diante da vida, nos tornamos mais tolerantes com os outros.
Já falei em outros posts, sobre a ditadura dos outros, essa "entidade a parte" que tenta nos governar. Porém muitas vezes somos essa entidade para aqueles que convivem conosco. A terapia ajuda a descobrir que o que nos incomoda nos outros é exatamente o que nos incomoda em nós mesmos. Libertos de julgamentos excessivos, passamos a nos perceber e buscamos dentro de nós mesmos as razões para os sucessos e insucessos de nossos relacionamentos. Só na liberdade é que conseguimos amar de verdade. A liberdade de ser quem realmente somos e de aceitar as pessoas como elas realmente são.
Mas porque será que nos sentimos tão vulneráveis ao julgamento externo e julgamos tanto?
É lá na infância que isso começa, quando os pais não se dão conta de quanto interferem na auto estima dos filhos, cobrando e exigindo situações das quais uma criança não pode dar conta. É preciso então curar a criança primeiro e depois o adulto. Isso de certa forma explica nossas atitudes infantis, diante de inúmeras situações. Deixamos que a nossa criança fale e tome conta da situação, como ela é imatura, geralmente
o desdobramento é infantil. Quando descobrimos esse funcionamento regressivo e passamos a nos perceber melhor, começamos a pensar antes de agir e nos questionamos: é o adulto que está agindo, ou é a criança imatura e muitas vezes mimada ou pouco amada que está no controle da situação? Às vezes o adulto consegue retomar o poder e racionalizar agindo como alguém que pensa e respeita. Mas se formos pensar nas brigas e nos desentendimentos familiares por bobagens, nas discussões de trânsito, percebemos que é uma tarefa árdua deixar o adulto que está em nós agir.
Devemos então não ouvir a criança que vive em nós? Não e muito pelo contrário é preciso estar atenta a ela e deixar que ela haja nos ensinando a viver de forma mais lúdica, menos exigente, é preciso entender que "a infância é a nossa pátria", é de lá que retiraremos os recursos para enfrentar a vida.
Parece um tanto paradoxal, de um lado deixar a criança não falar, de outro deixar ela agir; mas a nossa vida é feita disso: de muitos paradoxos...
Todo o paradoxo pode ser vivido se for no amor.
Ama e faze o que quiseres, já dizia Santo Agostinho, há muito tempo atrás...

Metamorfose do corpo

Hoje quero falar da imensa mudança na minha imagem, estou tirando aquela casca superficial que me cobria e revelando a minha essência.
Durante o processo de quimioterapia, mudamos muito: perdemos o cabelo, inchamos e nos sentimos, muito diferentes diante do espelho. É aí que começo o processo de descobrir o essencial que é invisível aos olhos. Estes ficam mais atentos, mais brilhantes, mais comunicativos.
Pelo olhar transmitimos alegria e contentamento, ou tristeza e solidão.
Durante o processo de quimioterapia temos a oportunidade de experimentar todos esses sentimentos e outros muitos mais.
O que nos ajuda?
O apoio da família, dos amigos e do meu marido.
Também ajuda deixar a endorfina agir, tentar recuperar a autoestima, não pela busca da beleza e sim pela busca do essencial: a saúde do corpo. É isso que tem motivado a minhas manhãs junto com a Fabi, minha "professora" nesta busca de saúde, o sedentarismo é uma das causas do câncer e eu nunca mais quero ser sedentária.
A preguiça cobra um preço alto demais, não vale a pena pagá-lo.
É melhor prevenir do que remediar, já diz o ditado.quem quiser ver como estou me prevenindo, aí está a prova...



23 de setembro de 2010

OLHA O OLHO DA MENINA

EU ADORO ESSA HISTÓRIA!!! PORQUE EU CONTINUO CRESCENDO E DESCOBRINDO NOVAS COISAS E ISSO ÀS VEZES É DOÍDO...

OLHA O OLHO DA MENINA

Marisa Prado
Ilustrações de Ziraldo
Menina crescia escutando
que não adiantava mentir
porque Mãe sempre sabia.

Mãe dizia
que lia na testa da Menina,
e que só Mãe
sabia ler testa.

Menina tentava
tapar a testa com a mão
na hora de mentir.
Mãe achava graça. Muita graça.
E continuava lendo assim mesmo.
Menina precisava entender
como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro,
mentia muito em silêncio.
E na testa, nada escrito!

Aí, Menina descobriu
que Mãe também mentia.
E que então não era testa
era o olho, com um brilho diferente -
que entregava a mentira.

Menina então tentava
fechar o olho com força,
para esconder a mentira.
Mas nem isso resolvia,
pois Mãe sempre adivinhava.

  Menina tinha era que aprender
a fingir de olho aberto,
que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou...
e aprendeu.
Era essa a solução.
Mas de noite
Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada,
não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto,
não conseguia dormir.

Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica
quase sem respirar
rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.
Menina - sem querer -
tinha descoberto a Consciência,
uma coisa que toma conta da gente
mesmo quando Mãe
não está lendo testa,
nem adivinhando olho.

Menina tinha aprendido
que ter que fingir doía.
E que desse jeito
ia ficar muito sem graça
ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.
Mas não adiantava.
Menina via que agora
já estava quase da altura
do móvel da sala da vovó.
E ficava muito triste,
o aperto apertando mais.

E de tanto que o aperto apertava,
Menina achou que fingir
só podia doer tanto
porque era dor sozinha.
Menina teve uma idéia.
E ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim -
que precisava testar,
pra conseguir descobrir.

A idéia da Menina
foi dizer para Mãe
que era difícil fingir.
Menina achava ruim
aprender montes de coisas
sem dividir com ninguém.

Menina falou pra Mãe
que era muito complicado
e que não era nada bom
ter que crescer sozinha.

Mãe abraçou
muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado
Menina estava sendo mãe da Mãe.
Menina sentiu
que mãe estava chorando.
E que Mãe
ainda não tinha aprendido tudo.

Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam
naquele abraço apertado
que em Mãe também doía
ser gente grande sozinha.


 
Nessa hora
Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho
é que espanta a solidão.
E que a dor, se dividida,
fica dor menos doída.
E que aí,
dá até vontade
de continuar a crescer
pra descobrir
o resto das coisas.
Marisa Prado
Ilustrações de Ziraldo

19 de setembro de 2010

Cuidar-se


Cuidar-se é arte de cuidar de si, pensando no próprio bem estar, livrando-se da preocupação de agradar os outros. Parece uma afirmação bem egoísta, mas na verdade, não é. Para ser generoso, temos que primeiro vivenciar a generosidade conosco mesmos. É um desafio e tanto, estou tentando colocá-lo em prática, mas com tantas imposições sociais incrustadas na minha vida, às vezes fica bem difícil. Fui educada para ser uma "lady", não xingar ninguém, não expressar meus desejos de forma clara, me contentar em viver feliz atendendo os desejos dos outros. Na verdade acho que esse papel eu me auto impus, na tentativa de agradar e receber amor.
Venho de uma família numerosa, cresci em meio a muitos irmãos e a forma de me diferenciar, foi tentando ser sempre a filha que dava menos problema, a que mais estudou, a que educou os filhos junto com o marido, a que manteve o casamento. Tudo teve um preço, quando queremos agradar a todos é muito fácil desagradar a si próprio.
Mesmo que eu me considere uma pessoa feliz e realizada é preciso avaliar a felicidade e a realização.
Amo minha família: meu marido, meus filhos e isso que estou vivendo, não tem nada a ver com eles.
É um exercício de auto conhecimento.
Começamos um processo onde passamos a nos perguntar o que realmente gostamos de fazer, aonde gostamos de nos divertir, que tipo de filme apreciamos, qual a comida preferida, o que eu mesma quero agora?
Agora exatamente neste momento, estou onde adoro estar, na minha casa, no meu quarto, escrevendo, pensando nos livros que li, nas coisas que vivi e fazendo uma avaliação da minha vida.
Quando escolhi o nome do blog: lupensandoumpouconavida, não imaginava, que realmente este se tornaria o meu destino por alguns meses. Minha rotina de repensar a minha vida tem sido constante. Afastada temporariamente da vida profissional, eu tenho vivido a pensar e pensar.
Parece uma tarefa inútil, pois acaba não "produzindo" aparentemente nada e muitas vezes me coloca em crise, pois se há uma hora para avaliar uma vida, durante um tratamento médico, tende a ser o melhor momento. Talvez porque imaginamos que nos foi dada uma segunda chance, uma chance de ajustar o que não vai bem e repensar as escolhas feitas até hoje. Entusiasmada e um pouco apavorada com a possibilidade  da mudança, fico meio perdida, sem saber para que lado ir. Não adianta querer a vida antiga de volta, é preciso reinventar uma nova, que pode ser até mais feliz, mas nem por isso se torna menos desafiadora.
A pessoa que fui não serei nunca mais; da imagem externa e interna, uma metamorfose lentamente se encaminha e é preciso vivenciá-la.
Neste processo de mudança quem está a minha volta acaba sofrendo também os efeitos e precisa se acostumar e se afeiçoar a uma nova pessoa.
Descubro agora, que tudo muda a todo o momento, o segundo atrás nunca mais será vivido, tudo é um ciclo onde se vive e se morre diariamente, seja no dia que vai embora, seja na renovação das nossas células que todos os dias ocorre, independente da nossa vontade.
Como diz o Lulu Santos: tudo muda o tempo todo no mundo..., e não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo.
Portanto é preciso, é necessária a tarefa de me escutar,  de me cuidar e não me agredir, é hora de arrancar a entidade "os outros", que insiste me morar em mim e viver de acordo com aquilo que eu mais desejo.
No Livro Curação a arte de bem cuidar-se diz mais o menos o seguinte: é preciso sair do si mesmo e viver uma vida que atenda o si próprio, que é singular, nada convencional e muito original.
É preciso descobrir a própria essência e desfrutá-la.
É desta descoberta que vai nascer um novo auto cuidado.
E nascendo o cuidado comigo mesma, estarei mais capaz, terei um cuidado mais qualitativo com o que estão a minha volta e necessitam de mim.
Afinal se existe uma coisa que não mudou, foi a minha vontade de continuar sendo uma cuidadora, seja em casa, com os meus amores, seja na profissão que escolhi, continuando a minha tarefa de educadora.
Continua a metamorfose...

15 de setembro de 2010

Sentir-se especial



Hoje estou mais recuperada da última quimioterapia que fiz no dia 10/09. Os efeitos como já relatei antes aparecem no terceiro e quarto dias e desta vez foram piores. Depois que passou, pensei: eu sobrevivi...
Mas desta vez achei que ia encontrar Jesus. Como ainda acho que tenho muito o que fazer por aqui Ele me poupou do encontro. Não que eu não queira vê-lo, na verdade espero um dia sentar e conversar com ele bem de pertinho, mas ainda acho que tenho muito que aprender por aqui.
Para me refazer um pouco do que estava sentindo e mandar o baixo astral embora, fui até o Espaço K, ali no Big da Cavalhada, para ser mimada pelos profissionais que ali trabalham. Chegando lá  Cako, o cabelereiro, já passou uma chapinha na minha peruca para melhor o visual, a manicure e a depiladora ficaram um tempão comigo, me escutando. Sem falar no olhar carinhoso da Kátia dona da estética que é tudo de bom. Sai de lá pensando em como é importante neste momento da minha vida ser cuidada. Eu que sempre cuidei muito de todos a minha volta, agora estou tendo o privilégio de me sentir especial, única. 
Para melhorar ainda mais o meu dia recebi  um e-mail de um amigo que está no exterior de férias e se lembrou de me animar um pouco.
Teve outro que ligou para me dizer um monte de bobagens e me fez rir, mesmo estando eu quase sem forças.
São as compensações do tratamento...
Da mesma forma me sinto predileta por Deus, não é a toa que ele me mandou esse desafio, sei que ele me ama muito, pois o que tenho aprendido nos últimos tempos, escola nenhuma ensina, só mesmo a experiência é que pode dar a sabedoria deste momento.
Começo a me lembrar do meu trabalho e de quanto o que fazemos retorna de bom para nós; não foi uma nem duas vezes que larguei tudo o que estava fazendo para simplesmente ouvir o que os outros precisavam dizer para alguém...
Sinto muita saudade disso: poder ouvir, acolher e entender...
Hoje pela manhã, novo presente da Vera minha amiga e que já teve a filha comigo na escola e não pude deixar de chorar, sei que a rotina dela e é bem agitada, mas teve um momento do dia em que ela escolheu uma foto para me alegrar...
Chorei de felicidade ...
Se o segredo está no olhar, também está no sorriso e no carinho que tenho recebido.
E no recado da foto: 

Nós te amamos!!!
Vera e Ana Tereza
 



11 de setembro de 2010

É o amor que me alimenta


Ontem foi o terceiro ciclo da quimioterapia.
E  hoje eu estou no repouso do meu quarto, descansando, em meio aos livros, às musicas e tudo que me faz sentir melhor.
Estou, assim... uma gatinha manhosa, como diz meu marido.
No segundo dia, eu costumo ficar um pouco enjoada, mas não muito. O pior vem no terceiro e quarto dia, onde a fadiga e o cansaço me pregam na cama.
Mas estou um pouco melhor, porque o meu feriado, deu uma pausa nas minhas "desventuras em série", Fomos viajar eu e o maridão, para Santa Cruz do Sul, visitar amigos muito queridos, que quando nos vem fazem de tudo para tornar o nosso dia melhor e realmente foi um dia e meio de esquecimento.
Pegar a estrada, com uma boa trilha sonora é algo que de certa forma cura, senão o corpo, a alma.
Um bom chimarrão, um biscoitinho de chocolate, colocar a conversa em dia, os planos, renovar sonhos e trocar novas promessas de amor. Não é preciso muito para ser feliz, na verdade precisamos de bem pouco.
A nossa felicidade deve caber em uma mochila que possamos carregar durante 900 km, já ouvi isso  de uma amiga que fez o caminho de Santiago de Compostela. Quanta tralha guardamos?  E o quanto ela nos escraviza...
Descobrimos que a felicidade está no caminho e não na chegada.
Estou vivendo esses momentos de felicidade e me alimentando deles com tudo que posso, pois quando vem o sofrimento, são esses momentos que me fazem suportar as dificuldades momentâneas.
É o amor que me alimenta ...
Tenho tanto que estou engordando... rsrsrs

9 de setembro de 2010

Adriana Calcanhotto-Gatinha manhosa



"Estou uma gatinha manhosa..."

Paz interior


Estou buscando a paz interior e acreditem não é nada fácil, aliás, nem tenho certeza de que é possível alcançá-la, sozinha tenho certeza que não consigo. Paz mesmo só brota quando estamos em intimidade total com Deus.
Mas acho que estou evoluindo no caminho. Já consigo não me mobilizar tanto e me afetar muito pelos acontecimentos a minha volta. Estou mais serena, mais consciente das minhas limitações e possibilidades.
Tenho uma fé mais mansa, mais segura. Sei que Deus está comigo, quase sinto a sua presença de forma concreta. Vejo ele na alegria dos meus filhos, sempre muito cheios de energia, nas minhas norinhas, sempre buscando tornar o meu dia melhor, me fazendo às vezes uma companhia silenciosa. Vejo Deus nos olhos do meu marido, que se organiza para estar perto de mim, para me amar mais do que nunca. Que tem paciência de me atender no meio de uma manhã de trabalho, com um pedido meu para comprar uma linha para costurar peruca... Haja paciência, dele, rsrsrs
Nos amigos que me ligam e me visitam, na família nem sempre presente, mas sempre rezando para que tudo dê certo.
Acho que é assim mesmo se de um lado às vezes me sinto só, de outro a casa já está cheia de novo.
Daí recebi um e-mail com uma prece de Santa Teresa, que me ajudou hoje de forma muito particular, pois amanhã, faço o terceiro ciclo da quimioterapia, isso se meu exame der ok, o que eu só saberei às 16:30 de hoje. A espera "liquida" um pouco com a paz, pois sou ansiosa por natureza.
Também procuro me manter calma, porque sei que depois que faço a quimioterapia, tem os dias em que fico entregue, muito fatigada. Preciso de forças para enfrentá-la e fazer deste tratamento meu aliado, meu amado e não meu inimigo.
Vou deixar registrada a prece, se não rezar por você, reze por mim, obrigada!
Prece de Santa Tereza:
O dia de hoje é de paz interior.

Você pode confiar em Deus de que você está exatamente onde precisa estar.
Não esqueça as infinitas possibilidades que nascem da sua fé...

Use esses presentes que você tem recebido e passe-os com o amor que tem sido dado a você.
Alegre-se de saber que você é filho de Deus.
Deixe que essa presença penetre em seus ossos, permitindo que 
sua alma cante livremente, dance, ore e ame.
Isso é para cada um de nós todos.
Amém!

6 de setembro de 2010

Convém sonhar...


Esses dias estava assistindo ao Café TV COM e a Tânia Carvalho, deu essa dica de livro: Convém sonhar de Miriam Leitão. Fui dar um espiadinha na sinopse e descobri que o livro trata dos acontecimentos que marcaram o nosso país nos últimos tempos. Mas o que me chamou atenção mesmo foi o título do livro: por que mesmo convém sonhar? Me perguntei.
Aí comecei a viajar nas hipótese e sonhos possíveis e impossíveis, próximos, ligados a mim mesma e macros, ligados a toda humanidade.
Elaborei então uma lista bem particular:

  • Convém sonhar por uma saúde mais plena do meu corpo.
  • Convém sonhar em ser mais magra.
  • Convém sonhar para chegar até a velhice e ter longevidade.
  • Convém sonhar com um amor que dure para sempre.
  • Convém sonhar com bodas de diamante.
  • Convém sonhar em ter netos, bisnetos e tataranetos.
  • Convém sonhar ver os filhos felizes e realizados em seus próprios sonhos.
  • Convém sonhar em uma vida mais livre de preocupações.
  • Convém sonhar em ser mais compreensiva com as mazelas humanas.
  • Convém sonhar com mais tolerância.
  • Convém sonhar com um mundo menos desigual.
  • Convém sonhar com um trabalho que só dê prazer.
  • Convém sonhar em ser menos consumista.
  • Convém sonhar em ser menos filosófica e mais ativa.
  • Convém sonhar em ser menos ativa e mais filosófica.
  • Convém sonhar ser menos superficial.
  • Convém sonhar ser mais superficial.
  • Convém sonhar ser menos contraditória.
  • Convém sonhar ser mais coerente.
  • Convém sonhar ser mais amorosa.
  • Convém sonhar ser mais ingênua.
  • convém sonhar em ser menos ingênua.
  • Convém sonhar em ser menos orgulhosa.
  • Convém sonhar em ser menos vaidosa.
  • Convém sonhar em ser mais autêntica.
  • Convém sonhar com um mundo mais limpo de idéias.
  • Convém sonhar com um mundo mais limpo e sustentável.
  • Convém sonhar em reciclar vidas, coisas e pessoas...
  • Convém sonhar com um mundo mais fraterno, com mais união e menos divisão.
  • Convém sonhar com menos fronteiras.
  • Enfim convém sonhar ...
Me ajude a completar a lista, faça um comentário e eu adicionarei,  no blog.

5 de setembro de 2010

Disfarçar para manter a autenticidade



Das muitas experiências que tenho vivido nestes dias, uma  pode ser encarada com muito bom humor e serve para desenvolver a empatia, ou seja a capacidade de se colocar no lugar do outro.
É a hora em que eu preciso me travestir para parecer com aquilo que realmente eu sou: uma mulher.
Na verdade hoje me sinto um travesti; já dei muita risada com o meu cabeleireiro sobre isso, apesar de eu estar careca, preciso levar as perucas para ele lavar e disse:
 - Todo o dia tenho que me "montar",  rsrs
Já tentei ficar careca, mas parece que agride a quem vê. Só mesmo meu marido, meus filhos e duas amigas, já viram a cena, que confesso também me incomoda.
Observando os comerciais antes do Jornal Nacional, cheguei a conclusão, que já sabia, o cabelo é o "queridinho" da nossa vida, por ele, gastamos o que não temos e não tem nada mais feminino, do que um cabelo bem tratado. Então por mais que eu queira esquecer estou sempre sendo lembrada, na revista que leio, no jornal que folheio, na tv que vejo.
Então vamos as perucas...
Não deixa de ser um disfarce, muita gente me vê e não me reconhece, o que às vezes é bem divertido, e em outras é uma verdadeira benção!
Daí parei para pensar em todos os preconceitos que temos, em todas as verdades que cultivamos e que às vezes estão esvaziadas de amor e concluo precisamos respeitar a amar todos sem distinção nenhuma.
Sempre me considerei uma pessoa livre de muitos preconceitos, tenho alguns que luto para arrancar de dentro, mas sabemos que é bem difícil, se livrar da cultura de excluir quem pensa diferente de nós. 
Toda a vez que nos diferenciamos a tendência é ser excluído.
Precisamos de uma mudança radical, pois o mundo está cada vez mais plural e o caminho é amar sem medidas e sem pré-requisitos. 
Sofremos muitas vezes porque não atendemos as expectativas de outros.
Quando mudamos o eixo de pensamento e nos descobrimos como a pessoa mais importante a se agradar, começamos a caminhar no rumo do amor.
Jesus nos dá o novo mandamento: amar o próximo, como a ti mesmo. Mas  se eu não me amo, não me cuido,  vai ser impossível amar o próximo e tolerá-lo nas suas imperfeições tão parecidas com as minhas.
Autenticidade, palavra traduzida como: Caráter do que é autêntico, legítimo, verdadeiro. 
É o que afinal de contas devemos buscar, tendo em vista, que cada um deverá buscar a sua própria verdade, aquilo que o faz feliz.
Hoje me sinto muito autêntica e diferenciada e é natural, que isso cause um certo estranhamento dos que me rodeiam, mas se você está me estranhando canto um trecho da música da banda NX ZERO:
"Não me julgue por não ser igual
Carrego a verdade aqui no olhar..."

Nunca em toda a minha vida, me senti tão perto de mim mesma e daquilo que desejo para a minha vida, estou desenvolvendo uma intimidade interna que só mesmo com muito suor e lágrimas, poderei dar conta.

2 de setembro de 2010

Histórias: Minha caixa de ferramentas favorita


Sempre adorei ler, e a literatura tem me ajudado muito, nestes dias.
De Cinderela na infância à Doroty, do Mágico de Oz na vida adulta, inúmeras histórias povoam a minha mente.
O conteúdo dos livros invade a minha vida de uma forma muito real. Conteúdo, aliás é o que não me falta: tantos de histórias imaginadas, quando de histórias reais. E se algum dia alguém suspeitou que a minha vida era vivida nos livros, hoje mais do que nunca ela daria um livro que com certeza seria alimentado pelo meu amor à leitura.
Elaborei muitas perdas e dores amparada nos personagens que li e nos heróis que conseguiram superar seus obstáculos.
Esse é o grande mérito da leitura na minha vida.
Desde cedo fui muito incentivada, li a maioria dos clássicos e dos romances, mas o que marcou mesmo e continua marcando, são os contos de fadas. Alguns poderão dizer que as histórias relatadas nestes contos são para crianças, que ingênuo engano. Pois somos fisgados de novo por eles na vida adulta, só que apresentados sob outra forma. Observe se seu filme favorito, seu livro de cabeceira, não tem um final feliz.
É tudo que queremos no fundo...
Sempre quis uma vida de contos de fadas: Cinderela era o meu conto preferido. Mas em todos os contos de fadas o "felizes para sempre", não sai barato. Portanto estou na fase gata borralheira de novo.
Na vida adulta meu personagem favorito era a Doroty do Mágico de Oz, pois representava a autonomia.
Os sapatinhos vermelhos de Doroty representavam para mim a minha fase de autonomia.
Como mulher passei a perceber que a responsabilidade da minha vida não dependia de nenhum príncipe encantado, teria que eu mesma buscá-la, ao lado dele, mas não dependendo dele.
Mas a vida prega peças na gente e quando achamos que somos independentes, precisamos de amparo e de um amparo que depende mais do que nunca dos amores que temos: marido, filhos se desdobram como podem, para fazer o papel do Mágico de Oz e resolver a carência momentânea.
A vida é um ciclo, logo, logo, a Doroty reaparece, mais humana e mais consciente, por enquanto, precisa ainda da ilusão do Mágico de Oz e de alguns cuidados.
Diana Corso em seu livro "Fadas no Divã, nos diz o seguinte:
" Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e quanto mais variadas e extraordinárias, forem as situações que elas contam, mais se ampliará a gama de abordagens possíveis para os problemas que nos afligem. Um grande acervo de narrativas é como uma boa caixa de ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária, pois determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate, ou a chave de fenda adequados. Além disso, com essas ferramentas podemos criar, construir e transformar os objetos e lugares."
São estes instrumentos que a literatura nos coloca à disposição e que nos ajudam a resignificar nossas experiências pessoais. Funcionam como um encorajamento, de que em algum momento, tudo vai passar.
A aventura humana é cheia de percalços, obstáculos e  acontecimentos inesperados, apesar disso todos podemos escolher o final feliz, ele está também na superação dos obstáculos, na travessia dos percalços e no entendimento que o inesperado sempre aparece. E no entendimento também que é sim possível "ser feliz para sempre", mas essa felicidade depende só de nós mesmas.