Selinho

Selinho

28 de agosto de 2010

O segredo dos "meus" olhos


Ontem vasculhei meus armários para olhar fotografias antigas e novas.
Queria dar uma olhada para ver se eu descobria pelo meu olhar se eu estava feliz ou triste na ocasião.
Olhei várias fotos minhas, de quando era bebê,  do primeiro dia de aula depois já adolescente, namorada, esposa, mãe, profissional, e pasmem, não encontrei em nenhuma delas uma em que estivesse infeliz, pelo contrário eu parecia muito feliz frente a tudo que me acontecia.
É óbvio que no meu caso as fotografias são na sua maioria de acontecimentos muito felizes, nunca vi ninguém fotografar velório. Nós fotografamos aquilo que queremos imortalizar, a cena, o momento, aquele instante mágico de felicidade.
Isso me deu um certo alívio, não é que eu me sinta culpada, por ter tido este câncer, mas na verdade creio que algumas razões psicossomáticas contribuem para que ele se instale. Olhando as fotos descobri que o que ocorreu estava acima do meu controle e pasmem eu continuo feliz.
Mesmo quando estou mau humorada (hoje), me sinto feliz.
Acredito no poder do bom humor autêntico, aquela pessoa que ri das próprias mazelas e não é severa demais consigo mesma.
No jogo da minha vida escolhi o frescobol, ao invés do tênis. Cuido muito as bolas que arremesso, principalmente aqui em casa, com os filhos e marido. Me parece que nenhum deles se sente cortado pelo meu ataque de tênis. Respeito muito os sonhos de cada um e sou uma boa incentivadora, com as limitações humanas normais, é claro.
Para que vocês entendam a grande diferença entre jogar tênis e frescobol, vou transcrever a crônica de Rubem Alves a respeito do tema, pois hoje faço aniversário de início de namoro: 28 anos juntos com o meu marido, desde o início tentando jogar frescobol. Na maioria das vezes conseguimos, embora já tenhamos tido nossas partidas acirradas de tênis. Nosso amor segue, tentando todos os dias jogar frescobol...
Segue o texto:


"Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)" Rubem Alves

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