Selinho

Selinho

25 de agosto de 2010

O envelope roxo


Continuarei  falando um pouco sobre o Alexandre, mas farei referência a ele, como aquele que se negou a receber o envelope roxo. A foto postada é atual e mostra o quanto ele está bem.
Vou explicar, trata-se de um livro, onde a protagonista principal é aquela, a quem todos tememos e da qual nenhum de nós a seu tempo escapará: A morte.
Pois ocorre que a história começa, quando ela a morte resolve fazer greve e não matar mais ninguém. Podem imaginar o que acontece? O caos é total, imagina ninguém morre e isso se arrasta por dias. O que é revelado nos atinge como um "soco no estômago", a humanidade aparece de forma muito "real" e aterroriza até mesmo a morte; então a morte vendo o que está acontecendo resolve tomar uma atitude e mudar os métodos, Retoma a sua missão, mas de outra forma. Agora ela resolve avisar através de uma carta, enviada dentro de um envelope roxo, a data da morte do vivente.
Abandona a visita inesperada e implacável, para dar uma chance as pessoas de resolverem suas questões.
Imaginem o segundo caos: saber o dia em que se vai morrer...
Será que dará tempo de pedir perdão a quem magooei?
De realizar os sonhos que ainda tenho?
Será que vai dar tempo?
Poderá ser "caos", ou "oportunidade".
No livro a morte entrega os envelopes e os que os recebem, seguem os protocolos de despedidas e se entregam ao seu derradeiro destino. Porém acontece algo inesperado, existe um envelope que retorna a sua ilustre remetente, uma, duas, várias vezes. A morte fica intrigada, como alguém pode se negar a morrer?
Que atrevimento é este?
Ela que nunca falhou em serviço, vai conferir de perto o que aconteceu, como o vivente é um homem, ela toma a forma de mulher e vai conhecer a pessoa que resiste ao seu apelo.
O desfecho: a morte se apaixona e desiste temporariamente de seu objetivo.
Conclusão: quando há amor, vontade de viver, nem mesmo a morte é certa.
O envelope roxo, pode ser comparado a um diagnóstico e um prognóstico ruim; mas cabe a nós que já passamos pela experiência de recebê-lo mostrar que quando há AMOR, nem mesmo a morte é certa.
Conheço muitas pessoas que já receberam o envelope roxo, assim como o Alexandre e o devolveram, entre estas pessoas está a minha avó, que hoje está com 88 anos e já recebeu pelo menos umas três vezes o tal envelope. Mas a vontade de viver e o amor sempre falaram mais forte, vamos ver por quanto tempo ela ainda consegue enganar a danada.
O que eu quero com toda essa história é dizer que quando enfrentamos uma doença grave, nos encontramos de fato com a possibilidade da morte e isso muda de forma muito radical a maneira que vivemos, nos modifica a tal ponto, que só queremos uma coisa: amar, todo o resto perde o significado.
Começamos a entender Santo Agostinho quando ele diz: "Ama e faz o que quiseres". Nos libertamos das amarras, nos desapegamos e buscamos a essência que não perece.
A doença é uma ótima oportunidade de rever a cada minuto, o que levaremos desta vida, já que aqui, não ficaremos para sempre.
Quero uma bagagem leve e alegre, primaveril, cheia de risos, sonhos realizados, amores vividos e dores vencidas.
Ah! o livro vale a pena ser lido: "As intermitências da morte", de Jose Saramago, é muito irônico e chega a ser engraçado, não tenha medo de ler, mesmo que eu já tenha contado o final, rsrsrs.

Um comentário:

  1. Parabenizo não só ao Alexandre pela coragem de encarar de frente as barreiras que a vida impôs, mas principalmente à família e a esposa que me parece (pelo olhar que fala mais do que mil palavras) ter compreendido perfeitamente o sentido da promessa "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença". Sabemos por experiência adiquirida que quando estamos no "olho do furacão" reagimos de forma inesperada e com uma força que não imaginávamos ter. Mas aos familiares que sofrem indiretamente a dor pode ser ainda pior por não poderem fazer nada além de acompanhar. A esta mulher e a toda a família reforço os parabéns pela coragem e perseverança... e que isto se estenda a todos que incondicionalmente apoiam, apoiam e apoiam.

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