Selinho

Selinho

18 de junho de 2010

Como é que a vida tem te tratado?


Eu estava naqueles dias deprimentes me sentindo a última das criaturas na terra, achando que enfim estava dando tudo "errado", que eu estava vivendo em meio a uma tempestade que parecia não ter hora, nem dia para acabar.
Meus pensamentos eram: eu quero que cicatrize a ferida do seio, eu quero não sentir dor, eu quero, eu quero e eu quero...
Foi  quando a personagem da série de TV: "A vida Alheia", faz uma pergunta a outra personagem:
- E  aí querida , como a vida tem lhe tratado?
Tive que rir, com o tom de voz, com o contexto da pergunta, que agora não vem ao caso. Mas o fato é que a pergunta me pegou de cheio...
Comecei a pensar como a vida tem me tratado, a fazer um balanço de tudo que já ganhei e tudo que já perdi.
Descobri algo maravilhoso a vida tem sido generosa comigo, não pouco, mas muito generosa.
Quem lê isso deve pensar, está louca, pois está doente, com uma cicatriz no peito, aberta, terá que fazer quimioterapia, teve câncer, perdeu o seio, a vida nunca mais será a mesma; e a vida foi generosa com ela?
Também estava me sentindo assim vítima das circunstâncias, talvez tenha sentado nesse banquinho de vítima por alguns dias...
Mas comecei a mudar o foco do meu pensamento e pensar nas possibilidades de uma nova vida cheia de mudanças e o que elas de fato podem me oferecer...
Há algo muito mais do que as lágrimas que inevitavelmente ainda terei que derramar, há uma vontade de viver, de crescer, de aprender, algo novo, descobri que não estou parada, estou em pausa.
O meu organismo solicitou esta pausa e vou respeitá-la.
O que a vida já me deu?
Primeiro uma fé muito grande em um Deus misericordioso, atento as minhas necessidades, que nunca me deixou na mão.
Depois o amor de uma família unida, com marido amoroso e filhos igualmente amorosos.
Muitos, muitos amigos, como me disse um, esses dias: - Tu sabes que tens um batalhão rezando por ti.
O câncer também traz a chance do nosso auto conhecimento, descobrimos de fato quem somos, quais os nossos medos, nossos sonhos, nossos fracassos e temos que encará-los por mais doloridos que sejam.
Nos dá a chance de viver uma vida mais verdadeira, mais intensa.
Começamos a perceber e valorizar as pequenas coisas do dia a dia. Sempre gostei muito do mar, da praia, da areia nos pés, agora isso tem o valor redobrado.
Comecei a torcer pelos dias com sol... Mas também a adorar o barulho da chuva.
Quando olho para meus filhos também percebo cada detalhe, cada gesto, e vejo neles muito de mim.
Olho para o meu amor, único homem que já tive na vida e que o é, desde os meus treze anos de idade e me comovo, com o seu otimismo, a sua calma, o seu cuidado e ainda por cima o seu "querer" por mim, em meio a tantas cicatrizes e curativos.
Enfim a vida tem me tratado muito bem obrigada...
Se tenho pedras no caminho? Me junto à Fernando Pessoa: guardarei todas e um dia vou construir um castelo.

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