Selinho

Selinho

24 de fevereiro de 2016

Varal

Há uma poesia nas roupas tremulando no varal.
Há a ausência dos corpos, mas o cheiro do amor ainda está lá...
Ah um varal colorido...
Quantos sentimentos...
Quantas lembranças dos tempos vividos dentro de cada roupa!
Quanto de amor pendurado, na lida de tantos e tantas!
Tudo me encanta, e o encantamento surge assim:
Simples e  colorido!

12 de janeiro de 2016

47 anos e desdobrável!

              Pois bem hoje é a véspera do meu aniversário, resolvi que iria escrever algumas linhas sobre o fato de eu insistir em existir.
        Eu estou de férias em um calor bem intenso nessa cidade que eu amo, a minha Porto Alegre. Estou com tempo disponível para refletir e arrumar armários, duas coisas que se retroalimentam, uma vez que arrumando um armário encontramos coisas passadas e o passado volta com força de presente.
         Em uma dessas arrumações encontrei uma caixa cheia de mensagens, mensagens que me foram escritas dias antes da minha cirurgia para retirada de um câncer (sim vai fazer 6 anos em abril!!!).
Fiquei umas duas horas lendo cada carta e cada bilhetinho. No final dessa aventura e tour pelo passado me coloquei a repensar o que me teria salvado daquela situação tão enlouquecedora.
        Acredito que em parte fui salva por meus defeitos.Tenho lutado  internamente para me livrar um pouco do orgulho e da vaidade da minha personalidade. Creio que esses dois somados me causam alguns estragos nos relacionamentos pessoais e profissionais. Desde que eu tive o câncer, tenho passado por uma processo lento de transformação da minha vida. Consegui muita coisa, meu sentimento em relação a mim mesma é, na maioria dos dias, de satisfação. Me sinto bem dentro da pessoa que tenho me tornado. Todavia não tenho como não deixar de reconhecer que o meu orgulho e a minha vaidade me salvaram, pois eu não sucumbi, não enlouqueci porque tratei o câncer como um grande inimigo com o qual lutei. Na minha luta decidi que eu não deixaria transparecer nenhuma brecha de fraqueza ou de dúvida. Eu queria matá-lo e esse pelo menos eu matei! Não estava me meus planos perder para ele, meu orgulho não deixaria.
     A vaidade me salvou nas minhas "aventuras travestis", onde eu tinha que lançar mão de muitos artifícios para permanecer me sentindo mulher. Valeu cada esforço! Valeu encarar os risos e os deboches, nada isso me afetava porque eu precisava era me sentir mulher e isso eu consegui. Não de graça porque para quem tem câncer tudo é muito caro (isso daria outro post), valeu cada real investido em perucas e cirurgias plásticas reparadoras. De sobra me tornei mias empática, hoje eu entendo muito a personagem Agrado do filme Tudo sobre minha mãe (vale a dica do filme).
       Mas não foi só isso que me salvou, teve também a fé em Deus, a entrega, a tentativa de perder o controle e de entregá-lo nas mãos de Deus, o que nem sempre foi fácil, não dá para mentir. Tive que me apoiar na fé de outros e isso em muitos momentos foi o que me sustentou. Lancei mão de toda ajuda possível, pedi orações, pedi a unção dos enfermos e  a comunhão em casa. Tudo para me manter calma e em conexão com Deus e com a sua força curadora.Valeu a pena cada prece entoada, esse foi o segredo maior da minha serenidade.
      Não só os céus me confortaram, também a humanidade me serviu de consolo. Louvo a capacidade humana de fazer a Arte. Também ela me devolveu à vida em muitos momentos. Encontrei consolo na poesia de Adélia Prado,  de Fernando Pessoa e de Mario Quintana. Nos romances carregados de ceticismo de Saramago e nos livros de auto ajuda (que paradoxo!), na efusão de cores e dramas dos filmes de Almodóvar e também nas produções de Hollywood. Nas músicas de Nando Reis, no som do The Killers ( e em em outros roqueiros) e também em algumas trilhas sertanejas. Tudo isso me proporcionou a seguinte constatação:

“Dor não tem nada a ver com amargura.
 Acho que tudo que acontece  é feito pra gente aprender cada vez mais, 
é pra ensinar a gente a viver. 
Desdobrável. 
Cada dia mais rica de humanidade”.                                                                                                             Adélia Prado      
                                  
     Ah esqueci! Teve também a força inigualável dos amores de todo o tipo, isso dará outro post...




26 de novembro de 2014

Making love

Hoje acordei com vontade de beijo de tirar o fôlego...
Resolvi fazer amor com a vida.

30 de outubro de 2014

As expectativas e seus excessos


Faz tempo que eu observo o quanto o excesso de expectativas nos traz infelicidade e nos atrapalha nos relacionamentos. Tenho falado muito disso no trabalho que realizo com noivos em preparação para o casamento e tento desmitificar essa vida cor de rosa que nos é apresentada.
A vida é muito mais "bege" do que se imagina.
Em geral as pessoas criam expectativas em cima de tudo, da vida profissional, da vida amorosa, da vida familiar... Quando as expectativas não se cumprem e falham,  o que vem é um grande sentimento de frustração. O fato é que esperamos de mais de tudo e de todos; fosse a vida um pouco mais leve e nós um pouco mais agradecidos, seria bem diferente.
Eu já fui a rainha das expectativas, estava sempre esperando um gesto de carinho, o reconhecimento do chefe, o reconhecimento da família... Até aí parece que não há problemas; o problema está no que a gente faz para não frustrar as expectativas... Nos agarramos na ilusão de que poderemos ser tão bons, mas tão bons que será inevitável ser reconhecido, mas "de verdade" não é isso que acontece.
A mídia nos ajuda a levantar o grau de expectativas, nos apresenta a família perfeita, o filho perfeito, a felicidade ao abrir uma lata de refrigerante... Nos vendendo que tudo é muito simples e que se a gente não consegue é porque não somos bons o suficiente. Quando descobrimos de que ninguém é tão bom e de que nós também não o somos, podemos lidar com uma felicidade um pouco mais baseada na realidade e mais possível de ser vivida.
Verdade mesmo é que a maior de todas as frustrações humanas é de que somos finitos, não há nada mais desapontador do que o fato de que não somos para sempre.
Conheço gente que vive como se fosse eterno...


6 de novembro de 2012

Marcas do que se foi...



É hora de ser feliz e deixar para trás tudo que já foi doloroso e que me fez sofrer. Deixar para trás não é esquecer, é simplesmente recomeçar...
Como foi difícil pensar nisso em se apropriar de um recomeço, em refazer tudo em mim e quando digo tudo claro que não é tudo, mas uma grande parte de mim se refez, se reconstruiu e quer se reintegrar.
A experiência de ser uma sobrevivente está para sempre marcada em mim. Tanto que fui buscar o significado desta palavra no dicionário e lá estava: aquele que escapou de morte ou ruína. 
É eu escapei!
Há pouco mais de sessenta dias da minha última cirurgia de reconstrução da mama está tudo ótimo comigo, sou grata pelo resultado. Porém as marcas estão ali no corpo e na alma, cicatrizes que não doem mais porque já não são feridas, mas que me lembram que agora já não são mais feridas e não há porque tratá-las como se estivessem abertas.
Estão fechadas, não há mais dor...
Sem dor a felicidade se torna algo possível novamente, os sonhos retomam seu lugar de honra, é possível voltar a sonhar, é possível voltar a realizar.
Descubro que não me encaixo mais em alguns espaços, quero buscar outros.
Descubro que quero novos cheiros, novas cores, novos desafios.
Descubro que me desapego fácil e que o que fui continuará para sempre em mim, mas posso ser outra e outras, descubro a pluralidade das minhas possibilidades!

6 de outubro de 2012

Poesia


Uma pequena e humilde adaptação da frase de Einstein: 
Há duas formas de ver a vida: 
A primeira é achar que na vida não há poesia nenhuma...
E a segunda é achar que tudo na vida é poesia...
Eu escolho a segunda ...

1 de outubro de 2012

Tudo novo de novo 2

Olá passados pouco mais de trinta dias da cirurgia, estou me sentindo muito bem, ainda com um pouco de dificuldade para dormir, porque é sempre a mesma posição (de barriga para cima).
 Está valendo muito a pena. Já passou um pouco da minha indignação em relação ao rompimento da prótese e acredito que o meu "encantamento está passando".
Encantamento porque tudo aconteceu neste processo de reconstrução...  Da perda da primeira prótese até o rompimento desta última, inúmeros sentimentos passam pela nossa cabeça, mas nenhum tira a vontade de sentir-se um mulher por inteiro novamente. Sei que alguns julgam bobagem afinal podemos viver sem um seio sem maiores problemas, em tese pelo menos. mas a cabeça da mulher não é assim o seio tem um significado muito particular, revela o nosso feminino e não há nada que substitua isso, pelo menos para mim é assim. Com certeza diversas mulheres continuam vivendo suas vidas, namorando, sendo amadas e felizes independente da mama. Mas eu quis "depois de tudo ainda ser feliz", muito feliz! E não desisti...

Fé e coragem para quem está em tratamento, tudo vale a pena!!!