Selinho

Selinho

17 de fevereiro de 2018

Ezequiel

 Estou escrevendo esse post, na cama de um hospital, pois é novamente aqui me encontro...
Após dois tumores de mama, me apareceu um tumor no olho direito com o nome de Melanoma de coróide! Sim de novo! Foi um novo golpe, porém, graças a Deus, descoberto a tempo para um nova cura! E é assim que estou enfrentando como uma nova oportunidade de cura. Está sendo difícil? Sim está, mas não vou tornar a minha dor maior do que ela deve ser.
Estou internada em São Paulo, único lugar no país onde há o tratamento para esse tipo de tumor. É um tipo raro de câncer... Até agora, tudo bem, o tratamento é relativamente aceitável, braquiterapia, direta no olho com a implante de duas placas no olho, do tamanho de sementes, para receber a radiação durante quatro dias. O tratamento foi totalmente indolor até agora. Nesses quatro dias eu fico no isolamento podendo ver somente as enfermeiras...Visitas de cinco minutos no máximo; o marido pode me ver por breve instantes, mas isso já me alivia a solidão!
Eu sou uma pessoa que não gosta de estar sozinha, prefiro a casa cheia, fiquei ansiosa com a necessidade de isolamento...
Mas agora que está acontecendo, estou calma, tenho rezado bastante e Deus tem sido minha fortaleza. Já não tenho pensado tanto, procuro ir levando o que tem me acontecido com tolerância e oração.
Tenho para mim que além da força que vem da oração da minha família e amigos, há de fato a presença calma do Senhor.
Me explico, para não acharem que estou louca...
Chegamos em São Paulo, no domingo, dia 4/02, e pegamos um Uber, o motorista um rapaz negro de 22 anos, jogador de futebol, nos contou toda a desventura sofrida, foi enganado pelo empresário, não estava mais jogando e que seu sonho era retornar aos campos de futebol. Ao final da história disse que não sabe porque nos contou, pois é assunto muito difícil para ele...Fiquei comovida com a história e pensei em rezar por ele, e desejo no meu íntimo que tudo se resolva. Ele me lembra um pouco meu filho Gustavo. Pergunto seu nome e ele diz: Ezequiel. Achei lindo esse nome, mas não pensei que era algum recado de Deus...
Chegamos ao hotel e saímos para a missa, depois pegamos um novo Uber, desta vez o carro parou em uma esquina, onde a rua se chamava Ezequiel, daí fiquei curiosa, esse nome de novo??? Mas guardei no meu coração...
Hoje me veio a inspiração para pesquisar, o significado e procurar por Ezequiel 37, e dai tive certeza, Deus me mandava dizer que era a minha fortaleza e que me restabeleceria, apesar de ter que passar por vales escuros, eu não temeria, ele estava comigo! Lá no versículo 5 diz o seguinte:
Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis.
Fiquei emocionada com essa palavra que reconstruiu em mim a minha fé e possibilitou a minha entrega total ao tratamento e ao momento em que eu estava inserida. D
aí por diante eu passei dias calmos na presença do Senhor que pairava no ar, me confortando e me servido de repouso. Ele prometeu reconstruir-me e eu estou tomando posse dessa palavra. Obrigada meu Deus!
Ah isso é só uma parte das delicadezas que ELE nos reservou durante essa aventura, tem outras, que eu vou contar em outro post...Vou chamá-lo de Maria deu o Sim pra mim!!!

2 de agosto de 2017

Conversa com Deus

O mal e o sofrimento
Leandro Gomes de Barros
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”
Tem coisa mais linda para se perguntar à Deus? Amei essa poesia declamada por Ariano Suassuna, quando perguntado se acreditava em Deus. Das certezas que nos restam perto de completar cinquenta anos, a minha fé em um Deus bom e amoroso é a que guardo com mais carinho... Acho que é por isso que fiz pacto com a felicidade, na verdade tenho uma aliança com Deus e esse é o meu diferencial, Deus me abastece mesmo que eu muitas vezes não perceba.
Mas nos momentos difíceis, já pensei e confesso: Tanta gente ruim no mundo, porque eu??? Daí veio essa poesia me socorrer, Deus estava lá só temperando a vida, dando um toque de sabor e errou a mão... Quem nunca salgou o feijão? Queríamos aquela feijoada perfeita, e estava quase... Será dá para consertar feijão salgado? Dá mas requer tempo e paciência... Analogias à parte, o fato é que eu estava lá vivendo a minha vida de Facebook, só que de verdade, levando a vida feliz, colhendo alguns frutos e veio esse câncer de novo me atrapalhar! Eu não consegui escrever nada sobre... Não dava para acreditar...Mas foi de verdade e está quase acabando, terminei a quimioterapia no dia 26/07 e agora estou me preparando para a radioterapia e todos os exames pós tratamento; ou seja 2017, foi um ano de respirar para não pirar, porque tudo isso com certeza vai até o final do ano.
Resta  ainda trabalhar o orgulho de achar que o sofrimento vem por merecimento e dar conta dessa ilusão de controle louca que quer nos convencer que esse câncer quem fez, fomos nós mesmos, isso é o que mais eu ouço e até já concordei... Mas vivo uma fase de negação e não quero assumir por inteiro uma responsabilidade que no mínimo, não é só minha! Quando eu vi uma criança de três anos entrar na unidade de quimioterapia, eu tive a certeza: Deus só podia ter ido "temperar o choro e acabou salgando o pranto"...


24 de fevereiro de 2016

Varal

Há uma poesia nas roupas tremulando no varal.
Há a ausência dos corpos, mas o cheiro do amor ainda está lá...
Ah um varal colorido...
Quantos sentimentos...
Quantas lembranças dos tempos vividos dentro de cada roupa!
Quanto de amor pendurado, na lida de tantos e tantas!
Tudo me encanta, e o encantamento surge assim:
Simples e  colorido!

12 de janeiro de 2016

47 anos e desdobrável!

              Pois bem hoje é a véspera do meu aniversário, resolvi que iria escrever algumas linhas sobre o fato de eu insistir em existir.
        Eu estou de férias em um calor bem intenso nessa cidade que eu amo, a minha Porto Alegre. Estou com tempo disponível para refletir e arrumar armários, duas coisas que se retroalimentam, uma vez que arrumando um armário encontramos coisas passadas e o passado volta com força de presente.
         Em uma dessas arrumações encontrei uma caixa cheia de mensagens, mensagens que me foram escritas dias antes da minha cirurgia para retirada de um câncer (sim vai fazer 6 anos em abril!!!).
Fiquei umas duas horas lendo cada carta e cada bilhetinho. No final dessa aventura e tour pelo passado me coloquei a repensar o que me teria salvado daquela situação tão enlouquecedora.
        Acredito que em parte fui salva por meus defeitos.Tenho lutado  internamente para me livrar um pouco do orgulho e da vaidade da minha personalidade. Creio que esses dois somados me causam alguns estragos nos relacionamentos pessoais e profissionais. Desde que eu tive o câncer, tenho passado por uma processo lento de transformação da minha vida. Consegui muita coisa, meu sentimento em relação a mim mesma é, na maioria dos dias, de satisfação. Me sinto bem dentro da pessoa que tenho me tornado. Todavia não tenho como não deixar de reconhecer que o meu orgulho e a minha vaidade me salvaram, pois eu não sucumbi, não enlouqueci porque tratei o câncer como um grande inimigo com o qual lutei. Na minha luta decidi que eu não deixaria transparecer nenhuma brecha de fraqueza ou de dúvida. Eu queria matá-lo e esse pelo menos eu matei! Não estava me meus planos perder para ele, meu orgulho não deixaria.
     A vaidade me salvou nas minhas "aventuras travestis", onde eu tinha que lançar mão de muitos artifícios para permanecer me sentindo mulher. Valeu cada esforço! Valeu encarar os risos e os deboches, nada isso me afetava porque eu precisava era me sentir mulher e isso eu consegui. Não de graça porque para quem tem câncer tudo é muito caro (isso daria outro post), valeu cada real investido em perucas e cirurgias plásticas reparadoras. De sobra me tornei mias empática, hoje eu entendo muito a personagem Agrado do filme Tudo sobre minha mãe (vale a dica do filme).
       Mas não foi só isso que me salvou, teve também a fé em Deus, a entrega, a tentativa de perder o controle e de entregá-lo nas mãos de Deus, o que nem sempre foi fácil, não dá para mentir. Tive que me apoiar na fé de outros e isso em muitos momentos foi o que me sustentou. Lancei mão de toda ajuda possível, pedi orações, pedi a unção dos enfermos e  a comunhão em casa. Tudo para me manter calma e em conexão com Deus e com a sua força curadora.Valeu a pena cada prece entoada, esse foi o segredo maior da minha serenidade.
      Não só os céus me confortaram, também a humanidade me serviu de consolo. Louvo a capacidade humana de fazer a Arte. Também ela me devolveu à vida em muitos momentos. Encontrei consolo na poesia de Adélia Prado,  de Fernando Pessoa e de Mario Quintana. Nos romances carregados de ceticismo de Saramago e nos livros de auto ajuda (que paradoxo!), na efusão de cores e dramas dos filmes de Almodóvar e também nas produções de Hollywood. Nas músicas de Nando Reis, no som do The Killers ( e em em outros roqueiros) e também em algumas trilhas sertanejas. Tudo isso me proporcionou a seguinte constatação:

“Dor não tem nada a ver com amargura.
 Acho que tudo que acontece  é feito pra gente aprender cada vez mais, 
é pra ensinar a gente a viver. 
Desdobrável. 
Cada dia mais rica de humanidade”.                                                                                                             Adélia Prado      
                                  
     Ah esqueci! Teve também a força inigualável dos amores de todo o tipo, isso dará outro post...




26 de novembro de 2014

Making love

Hoje acordei com vontade de beijo de tirar o fôlego...
Resolvi fazer amor com a vida.

30 de outubro de 2014

As expectativas e seus excessos


Faz tempo que eu observo o quanto o excesso de expectativas nos traz infelicidade e nos atrapalha nos relacionamentos. Tenho falado muito disso no trabalho que realizo com noivos em preparação para o casamento e tento desmitificar essa vida cor de rosa que nos é apresentada.
A vida é muito mais "bege" do que se imagina.
Em geral as pessoas criam expectativas em cima de tudo, da vida profissional, da vida amorosa, da vida familiar... Quando as expectativas não se cumprem e falham,  o que vem é um grande sentimento de frustração. O fato é que esperamos de mais de tudo e de todos; fosse a vida um pouco mais leve e nós um pouco mais agradecidos, seria bem diferente.
Eu já fui a rainha das expectativas, estava sempre esperando um gesto de carinho, o reconhecimento do chefe, o reconhecimento da família... Até aí parece que não há problemas; o problema está no que a gente faz para não frustrar as expectativas... Nos agarramos na ilusão de que poderemos ser tão bons, mas tão bons que será inevitável ser reconhecido, mas "de verdade" não é isso que acontece.
A mídia nos ajuda a levantar o grau de expectativas, nos apresenta a família perfeita, o filho perfeito, a felicidade ao abrir uma lata de refrigerante... Nos vendendo que tudo é muito simples e que se a gente não consegue é porque não somos bons o suficiente. Quando descobrimos de que ninguém é tão bom e de que nós também não o somos, podemos lidar com uma felicidade um pouco mais baseada na realidade e mais possível de ser vivida.
Verdade mesmo é que a maior de todas as frustrações humanas é de que somos finitos, não há nada mais desapontador do que o fato de que não somos para sempre.
Conheço gente que vive como se fosse eterno...


6 de novembro de 2012

Marcas do que se foi...



É hora de ser feliz e deixar para trás tudo que já foi doloroso e que me fez sofrer. Deixar para trás não é esquecer, é simplesmente recomeçar...
Como foi difícil pensar nisso em se apropriar de um recomeço, em refazer tudo em mim e quando digo tudo claro que não é tudo, mas uma grande parte de mim se refez, se reconstruiu e quer se reintegrar.
A experiência de ser uma sobrevivente está para sempre marcada em mim. Tanto que fui buscar o significado desta palavra no dicionário e lá estava: aquele que escapou de morte ou ruína. 
É eu escapei!
Há pouco mais de sessenta dias da minha última cirurgia de reconstrução da mama está tudo ótimo comigo, sou grata pelo resultado. Porém as marcas estão ali no corpo e na alma, cicatrizes que não doem mais porque já não são feridas, mas que me lembram que agora já não são mais feridas e não há porque tratá-las como se estivessem abertas.
Estão fechadas, não há mais dor...
Sem dor a felicidade se torna algo possível novamente, os sonhos retomam seu lugar de honra, é possível voltar a sonhar, é possível voltar a realizar.
Descubro que não me encaixo mais em alguns espaços, quero buscar outros.
Descubro que quero novos cheiros, novas cores, novos desafios.
Descubro que me desapego fácil e que o que fui continuará para sempre em mim, mas posso ser outra e outras, descubro a pluralidade das minhas possibilidades!